RIO
No dia 12 de agosto do ano passado, por 36 votos a 24, o então deputado é cassado. A prisão de Álvaro Lins é decretada no dia 14 e no dia 19 ele se apresenta e é levado para Bangu 8, presídio de segurança máxima do Rio de Janeiro.
Álvaro explica que durante um processo a prisão acontece para evitar que a pessoa prejudique os trabalhos. “E aí os argumentos deles dizendo que eu tinha que ficar preso eram os seguintes: suspeita da minha participação no atentado contra Alexandre Neto (delegado), suspeita de participação na morte do PM Jorsan Machado de Oliveira e chantagem ao presidente da Alerj, Jorge Picciani. Segundo Álvaro, as três acusações caem por terra quando os fatos são colocados.
Chantagem a Picciani
No dia 1º de agosto, o jornal O Globo solta a seguinte notícia: PF investiga se Álvaro Lins chantageia Picciani. A matéria se refere a um relatório de inteligência da Polícia Federal que revela que o deputado estaria chantageando o presidente da Alerj para escapar da cassação no plenário. A chantagem seria o vazamento do conteúdo de um processo de Rondonópolis (MT) a que Picciani responde por prevaricação e concussão. O problema, segundo Álvaro Lins, é que esse relatório de inteligência da PF não existe e isso foi comprovado em um ofício emitido a ele pela própria instituição. O ofício foi redigido em 13 de agosto de 2008, um dia depois de ele ser cassado, dizendo que o “relatório de inteligência citado na matéria do Globo, do dia 1º de agosto de 2008, não foi produzida por qualquer órgão da Polícia Federal”. (ver reprodução 2).
“Há um repórter que se especializou em produzir essas matérias contra mim, Sérgio Ramalho. Ele é citado na investigação como sendo alvo de cooptação na quadrilha do Fernando Iggnácio, como o Messias. Ele faz essa matéria sabendo que minha cassação seria votada no dia 12. Requeiro esse relatório e a Polícia Federal só me entrega um dia depois de eu ser cassado. No relatório já me chamam de ilustríssimo, não de excelência. Então foi feito depois da minha cassação”, desabafa.
Atentado contra Alexandre Neto
O delegado Alexandre Neto sofreu um atentado em setembro de 2007. A polícia trabalhava também em uma linha de investigação de que policiais militares haviam sido os responsáveis pelo atentado. Isso porque em fevereiro de 2006 aconteceu um episódio entre eles e o delegado que teria estacionado seu carro em local proibido. Alexandre foi preso na ocasião, por desacato e os policiais foram autuados por abuso de autoridade.
Antes de ser preso, Álvaro Lins conta que os policiais militares que participaram do atentado contra o delegado foram acusados, presos e pronunciados no Tribunal do Júri. “Hoje estão aguardando julgamento. O delegado que fez a investigação prestou depoimento de que nunca teve nenhuma linha de investigação com meu nome, só o fato do Alexandre Neto querer dar uma conotação de heroísmo as suas loucuras e querer que eu estivesse por trás daquilo”, destaca.
A morte do PM
O PM Jorsan foi morto em fevereiro de 2007. Álvaro conta que sua única ligação com o policial foi um telefonema que fez agradecendo por ter votado nele para deputado. “A repórter que nos apresentou já depôs e disse que foi ela quem me apresentou ao PM e quando eu ganhei a eleição ela pediu para eu ligar agradecendo. Peço também uma declaração da delegacia e eles informam que não possuem nenhuma suspeita de meu envolvimento nessa morte”, cita.
O PM era apontado como o chefe da milícia no Morro da Caixa D’Água, em Jacarepaguá, e estava sendo investigado por envolvimento com o bicheiro Rogério Andrade.
A VIDA DE ÁLVARO LINS EM BANGU 8
Considerando-se inocente, o ex-chefe de Polícia Civil diz que ficar nove meses preso foi uma provação muito grande. “Queria não entender de Direito como entendo. Queria não ter minha formação jurídica, porque a minha prisão praticamente destruiu todos os valores em que eu acreditava existir no Direito. Tudo o que achava que não era o correto, que não podia ser feito, foi feito contra mim”, diz.
A palavra interrogatório não existe para Álvaro nesse tempo do início da operação Gladiador, até na última semana, quando deu entrevista ao A VOZ DA CIDADE. Ele conta que não foi interrogado até hoje, em pouco mais de três anos. “Nunca prestei nenhum depoimento, nunca ninguém me perguntou o que tenho a falar em minha defesa. É um absurdo o que está acontecendo no Brasil. Fiquei preso nove meses para não coagir testemunha e nenhuma foi ouvida nesse tempo, elas só passaram a ser ouvidas depois que fui solto”, informa.
De acordo com ele, foi quando ficou preso que seu processo começou a ser formulado. Foi nessa época que passou a conhecer o processo contra ele. Ficar preso sem processo formulado pode acontecer, segundo Álvaro, mas não devia, porque o motivo da prisão é evitar que o acusado influencie na produção das provas, “mas eles (a polícia) não tinham provas a serem produzidas”. Ele falará agora, quando for marcada a data de seu depoimento.
A rotina
As celas de Bangu 8 eram fechadas às 18 horas e reabertas às 8 horas. Na cela de Álvaro havia mais sete presos, entre assassinos, assaltantes e traficantes. De manhã saía no pátio para caminhar e depois começava a estudar os processos contra ele. “Tudo isso que encontrei foi quando estava na prisão. Eram mais de seis mil páginas do processo e li tudo. Nunca tinha falado dessas coisas antes porque não tinha conhecimento. Tentei ter cópia quando ainda era deputado e pedi para o Conselho de Ética da Casa solicitar todo o processo. Porque de seis mil páginas eles tinham apenas 150. Pedi, mas eles não aceitaram com a pressa de dar uma satisfação para a opinião pública”, conta. Além disso, o ex-chefe da Polícia Civil diz que procurava se interessar pelos processos dos outros presos. “E fui ganhando respeito e consideração de todos eles e isso me dava uma certa tranquilidade”, lembra.
O convívio
Ao ser levado para Bangu 8, Álvaro não sabia que Fernando Iggnácio e Ricardo da Cruz Teixeira, o Batman, estavam no mesmo local. Álvaro acusa o contraventor de estar por trás de toda a engenharia formada contra ele, ao lado de Alexandre Neto e repórteres da Globo.
A presença desses “inimigos”, já que Álvaro, sozinho, foi responsável pela prisão de Batman em uma churrascaria de Campo Grande, foi considerada estranha. Ele acredita que poderia ter sido colocado em qualquer lugar, em casa de custódia, quartel da PM, carceragem da Civil, mas não em uma penitenciária, que é lugar para condenado. “Eles queriam gerar uma situação de conflito, de atrito. Consegui uma ordem judicial para que eu fosse retirado e transferido para um quartel da Polícia Militar. A ordem foi ignorada pelo Governo do Estado, dizendo que não havia vaga em nenhum batalhão”, conta, informando que seu advogado chegou a pedir a relação de quantos policiais militares foram presos do dia da ordem até dois meses depois. “Só nesse intervalo foram mais de 30 policiais presos. Para onde eles foram levados?”, questiona. Essa ordem judicial é de 14 de novembro de 2008, assinada pelo juiz federal Lafredo Lisboa Vieira Lopes. (Ver reprodução 3)
ACUSAÇÃO A CABRAL
E direto ao ponto, Álvaro diz que quando fala “eles” se refere ao Governo do Estado, ao governador Sérgio Cabral. “Porque quando prendi o Batman, por exemplo, em setembro de 2000, ainda diretor da Polinter, ele estava almoçando junto com Levi Batista da Penha, vulgo Baby, chefe do tráfico de drogas do Complexo do Alemão, e outro homem condenado por tráfico chamado Aldemar Almeida dos Santos, o Robin, que já morreu. E esse homem, condenado há 14 anos por tráfico de drogas, na hora que eu prendi o Batman me deu uma carteirada de assessor parlamentar do gabinete do deputado Sérgio Cabral. O prendi também”, relembra.
Álvaro não acredita que toda a ação tenha sido articulada por Cabral. De acordo com ele, todo o processo foi feito por denúncias produzidas por Alexandre Neto e Fernando Iggnácio. “A Polícia Federal utiliza esse material, transforma nessa operação e o Cabral utiliza os dividendos políticos. Essa é a forma que vejo. Acho que eles foram se agregando aos poucos”, acredita, completando que Cabral vê nisso uma oportunidade de tentar enfraquecer ele e, consequentemente, Garotinho. “Quando me coloca numa penitenciária de segurança máxima, descumprindo uma ordem do juiz, o que está querendo fazer? Quer dar a mim uma conotação de periculosidade que não existe para tentar manter essa coisa toda em evidência e tentar prejudicar o principal adversário dele que é o Garotinho”, denuncia.
Interesse em sua morte
Para Álvaro, pode não ter havido um interesse direto em sua morte na prisão, mas o fato de gerar um escândalo era iminente, e uma indisposição com algum preso poderia resultar em sua morte. “O que será muito bom até para o senhor Sérgio Cabral. Não posso dizer que ele me colocou ali para morrer, mas ele sabia dos riscos que eu corria estando ali. Estava em um complexo penitenciário onde há 15 mil presos e quase metade quem colocou ali fui eu, a polícia sob a minha administração”, menciona.
Questionado se alguma tentativa contra ele ou alguma briga aconteceu dentro de Bangu 8, Álvaro diz que não, pois os presos o tratavam com respeito. Até mesmo o Batman. Já com Fernando Iggnácio nenhuma palavra era trocada.
É SOLTO
No dia 28 de maio deste ano, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) concedeu liberdade provisória a Álvaro Lins. Segundo ele, esse julgamento teve início 60 dias antes, mas teve que aguardar o parecer dos cinco ministros.
ESCUTAS TELEFÔNICAS
O pen drive - Em documentos recebidos pelo A VOZ DA CIDADE constam diversas escutas telefônicas da própria Polícia Federal, de 2006, envolvendo pessoas que são consideradas suspeitas de integrar a quadrilha de Fernando Iggnácio e o próprio contraventor. Em uma das conversas, de 7 de dezembro de 2006, o advogado do contraventor, Silvio Maciel de Carvalho, diz que a matéria não iria sair se um pen drive não fosse liberado. “Eu falei para ele que o cara vai ser diplomado etc. Se você quiser fala até com ele, ele está do meu lado”, diz um trecho das escutas. Em seguida, Fernando Iggnácio menciona que isso era o importante, ter essa definição. Silvio informa em seguida que avisou que “ele” iria passar para outra emissora. “Mas ele falou que isso é trabalho dele, mas que é posição da Rede Globo”.
Nessa escuta fica claro que o pen drive viria da Polícia Federal. “Assim que tiver liberado ele me passa. Eu tive com a pessoa lá na Federal. Tem uma parte liberada, mas tudo não tem. A perícia não está completa”, diz outro trecho, falado por Silvio.
Em outro trecho, no mesmo dia, o próprio Fernando Iggnácio diz em conversa com Marquinhos 2, ainda não identificado pela PF, mas que pode fazer parte da instituição que deu “um xeque mate no amigo (Messias) para saber daquela posição”. “A parada é o seguinte: eles só querem fazer a matéria quando sair o pen drive”, disse Fernando. O contraventor diz que mandou confirmar na sede da PF se não saiu mesmo o pen drive e a resposta foi negativa. Nessa hora Fernando também menciona a diplomação, que ao que tudo indica é de Álvaro Lins. “Eles querem fazer uma matéria para o Prêmio Esso, não estão preocupados com a diplomação”, diz no trecho.
Sobre esse pen drive, Álvaro Lins destaca que pelo que pode notar nas investigações foi apreendido no dia da prisão do Rogério Andrade e Fernando Iggnácio acreditava que o nome do ex-chefe de Polícia poderia estar contido nele. E isso não aconteceu. No pen drive existia a contabilidade do contraventor, de pagamento de propina para a delegacia, o batalhão, as despesas do dia a dia e seu nome não foi mencionado.
Nessas escutas, segundo Álvaro, Fernando Iggnácio não conseguiu sucesso no caso do pen drive porque a intenção era vender a matéria usando o seu nome. A única providência tomada sobre essas escutas de 2006 foi a demissão do repórter da rede Globo Messias Xavier em dezembro do mesmo ano. “Eu não estou sendo acusado de proteger o Rogério Andrade? Porque o Alexandre Neto não responde por proteger o Fernando Iggnácio? No meu caso não tem prova alguma, nunca falei por telefone, nem vi. O senhor Alexandre não, ele atende às ordens do Fernando, é testemunha de defesa do Fernando Iggnácio”, acusa.
Antecipação
Outro grampo feito pela Polícia Federal, no dia 5 de dezembro de 2006, mostra Fernando Iggnácio conversando com um homem identificado apenas como Marquinhos 2. Esse homem informa ao contraventor quem foi escolhido como novo chefe de polícia, na época Gilberto Ribeiro. Ao longo da conversa, Fernando Iggnácio diz que um delegado da Polícia Federal esteve um dia antes conversando com ele. “Ele é de fora, não é daqui do Rio, não. Ele veio, passou 30 dias aqui e voltou para a cidade dele de origem. Função dele: fazer levantamentos, tá? E comentou a respeito do caso do Álvaro, que a coisa está tomando uma proporção muito grande, vai ser uma grande operação, entendeu? E foi falado naturalmente cara. E ele nem é do Rio”, diz o trecho da escuta.
O contraventor confirma dez dias depois a informação repassada a ele por um delegado da Polícia Federal, segundo ele com a operação Gladiador.
REDE GLOBO
Outras escutas são de repórteres da Rede Globo. José Messias Xavier, que chegou a ser demitido, é acusado pelo Ministério Público Federal de receber pagamentos mensais, além de “presentes extras” da organização criminosa comandada pelo contraventor Fernando Iggnácio. Ele foi apontado como integrante da quadrilha. As investigações dizem que Messias foi pago para “plantar” matérias e dossiês contra rivais e manter a quadrilha informada.
Em uma conversa de 16 de novembro, escuta da Polícia Federal, entre Messias e Silvio, é mencionada a fala do advogado dizendo que “O Globo não divulgou a matéria porque as pessoas que sairiam se cotizaram e passaram para alguém da Rede Globo a importância de R$ 2 milhões”. Em seguida Messias diz que a Globo ganha muito mais que isso por dia e Silvio afirma que alguém “ganhou” essa quantia.
Em outro trecho gravado em 17 de novembro de 2006, entre Silvio e Messias, é tratado de dinheiro e antes é mencionado o cara, que no entendimento da Polícia Federal é Alexandre Neto, agora delegado da DAS. (Ver reprodução 4)
ALEXANDRE NETO
Considerado por Álvaro Lins como um dos que articularam essa ação contra ele, Alexandre Neto é hoje lotado na Delegacia Antissequestro (DAS). Em entrevista à Rede Globo em junho de 2008, ele é chamado de delegado que denunciou a corrupção na polícia do Rio que vive sob o “fio da navalha desde que fez as primeiras denúncias sobre um grande esquema de corrupção envolvendo policiais e até o ex-chefe da Polícia Civil”.
Nessa época, Alexandre Neto já havia sofrido um atentado e disse que policiais civis e federais envolvidos na investigação estariam também correndo risco. Questionado sobre se ele sabia quem estava por trás dos atentados, Neto disse que não teria que pensar muito para chegar à conclusão que os maiores interessados são os seus “algozes, aqueles que sofreram ou estão sofrendo prejuízo moral, ético e até disciplinar e criminal pelas denúncias que foram feitas”. Mas em 2007 a polícia já estava em uma direção da investigação voltada para policiais militares que tiveram problemas com ele no passado.
Disse na entrevista que os policiais civis e federais corriam risco porque “chegou-se a uma quadrilha de nível governamental”. Falou ainda no final que não era um denuncista. “Eu me considero um delegado que quer ver uma polícia melhor, bem remunerada, com colegas ganhando bem, sem ter de precisar aderir a qualquer esquema de corrupção, que é montado de cima para baixo. Nunca é montado de baixo para cima. Ou seja: o chefe de Polícia faz aquilo que o governador quer. Se o governador não quiser, não acontece”, disse na época.
Perguntado sobre essa afirmação, Álvaro Lins disse que essa afirmação de Alexandre Neto foi eminentemente política, porque qualquer pessoa que trabalha na polícia sabe que é possível fazer coisas à revelia do governador. “A ligação dele (Alexandre Neto) com o Cabral é possível que exista sim, é possível que ele esteja tentando usar isso para enfraquecer o Garotinho”, opina.
Durante seis meses, o ex-chefe de Polícia conta que teve o seu e mais de 50 telefones ligados a ele grampeados. Segundo a lei, o “grampo” pode ser feito por, no máximo, 30 dias. E diz ainda que não existe na investigação nenhuma conversa sua com o governador Cabral. “E eu falei com ele várias vezes”, admite.
Em um dos documentos recebidos pelo A VOZ DA CIDADE consta o depoimento de Octávio Augusto Brandão Gomes, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) – seção do Estado do Rio de Janeiro, à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Escutas Telefônicas Clandestinas, em março de 2008. Nesse depoimento, Octávio acusa Alexandre Neto, em 2001, de colocar uma escuta clandestina em seu telefone. O então delegado já havia sido sócio do ex-presidente da OAB em um escritório de advocacia e, quando se tornou delegado, passou a sociedade para Roberto Gomes Nunes, que também se tornou delegado. Octávio conta que depois que Roberto entrou para a polícia disse que não queria ambos em seu escritório, daí foram retirados os pertences. Foi quando encontraram o gravador que tinha as iniciais AN.
O fato de não querer Alexandre Neto em seu escritório foi porque mesmo depois que virou delegado continuava frequentando o local para conversar com o amigo Roberto.
Octávio conta que a existência de um grampo clandestino e toda a situação denunciada para a Corregedoria da Polícia Unificada e o processo ficou “praticamente paralisado”. Em 2006, ainda presidente da OAB, foi procurado por um policial dizendo que “tinha provas de que o delegado Alexandre Neto tinha mandado, tinha feito um grampo ilegal” em seu escritório. Ele encaminhou esse policial ao Ministério Público Estadual, como não confiava na Corregedoria Unificada.
Feito isso, o então secretário de Direitos Humanos na época, Paulo Bahia, que também prestou esclarecimentos à CPI, solicitou a abertura de novo procedimento ao corregedor na época, José Vercílo. Em 2008, o ex-presidente da OAB disse que não tinha conhecimento do caso.
Paulo Bahia disse também que chegou a pedir a exoneração do corregedor-geral,Vercílo, e o seu chefe de Gabinete, Wagner Ramos Pereira, por ter recebido várias denúncias de que a corregedoria estava agindo de maneira tendenciosa. Em 2008 ele também não sabia do rumo do caso. “Infelizmente, tenho que concordar que a sindicância original não foi bem feita”, disse na época.
Policial confirma grampo
Em seu depoimento recentemente, também recebido pelo A VOZ DA CIDADE, como testemunha de defesa de Álvaro na ação penal, o policial Marco Antônio Nunez Pereira confirmou que esse grampo, feito em 2001 por Alexandre Neto. Ele contou que conhece o delegado desde 1988, sendo amigo íntimo dele, porém, o surgimento de alguns fatos fizeram com que a amizade fosse rompida. O policial disse que prestou um serviço para Alexandre Neto de elaboração de uma página na Internet para divulgação de uma garota de programa e que ao tratar o pagamento foi informado que isso seria feito com serviços sexuais da garota. O policial não aceitou porque alegou que precisava do dinheiro.
Marco Antônio afirmou que teve de ir várias vezes prestar depoimento para se retratar do que tinha dito de Alexandre Neto no caso do grampo no escritório de advocacia. Ficou sabendo do grampo porque um homem que instalava equipamentos eletrônicos em geral o procurou para adquirir equipamentos para proteção de grampos e ele teria dito que Alexandre Neto falou que nenhum problema ia acontecer porque ele era delegado.
Citou ainda que o ex-amigo tinha uma relação estranha com policiais federais. Contou de um episódio que estava com o delegado e foram na Polícia Federal. O delegado subiu sozinho e voltou com CDs de grampos telefônicos e que os CDs tinham conteúdo relacionado aos “Inhos” e a Álvaro Lins. Disse ainda que resolveu fazer as denúncias contra Alexandre para tentar se defender das ameaças do delegado de acabar funcionalmente com sua vida.
Motivo do ódio de Alexandre Neto
Falando de uma informação que não estava no depoimento do ex-presidente da OAB na CPI das Escutas Clandestinas, Álvaro Lins disse que o Dr. Octávio lhe telefonou – ele não era mais o chefe da Polícia Civil, estava em campanha – dizendo que um policial havia confirmado que Alexandre Neto havia feito o grampo. Segundo Álvaro, foi ele quem pediu a Octávio que encaminhasse o policial ao Ministério Público. Depois do processo reaberto Álvaro informa que o delegado passou a ter “ódio mortal” dele.
“Antes disso ele não gostava de mim, mas por besteira, porque eu não permitia que ele recebesse credenciais do carnaval, como se fosse trabalhar pela polícia, porque num episódio eu o vi na Marquês de Sapucaí de mãos dadas com dois travestis, com crachá da Polícia Civil, como se estivesse trabalhando. A partir disso não permiti que ele recebesse as credenciais. Ele podia estar de mãos dadas com quem quisesse, mas que estivesse de folga”, diz.
MAURÍCIO DEMÉTRIO
Outro delegado que fez denúncia contra Álvaro foi Maurício Demétrio. O ex-chefe cita que recentemente ele foi promovido pelo Governo do Estado por bravura. “A promoção dele dentro da polícia é um escândalo. É um delegado que nunca foi titular de delegacia nenhuma e de repente é promovido à mais alta posição dentro da polícia que é delegado de primeira classe. Ele está na DRFA. Por que o senhor Cabral promoveu esse camarada? Qual o interesse em manter esses homens que são medíocres do ponto de vista profissional? Falo isso porque trabalhei seis anos dentro da polícia”, opina e continua: “Eu falo isso porque tenho certeza absoluta que o Sérgio Cabral vê nesse processo uma oportunidade de tentar enfraquecer a candidatura de Garotinho, que responde por formação de quadrilha. Só não foi preso. Eu sou uma parte que é mais fácil de ser atingida”.
Para Álvaro, a demissão desse delegado em 2004 foi o motivo de tanto ódio. Quando era delegado adjunto de Proteção ao Meio Ambiente, ao lado do delegado Marco Aurélio de Castro e um parlamentar, fez uma diligência à empresa Tribel, que presta serviço para a Bayer e fica localizada dentro dela. Esse fato gerou um sério problema, tanto que Maurício e o outro delegado foram exonerados pelo governador Garotinho. Jornais da época diziam que a diligência foi um “festival de trapalhadas” e que isso gerou revolta nos meios empresariais. Consta que o presidente da Firjan, Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, foi pessoalmente reclamar com Garotinho, na época secretário de Segurança do governo de Rosinha Garotinho. “O Maurício liga para minha casa, faz ameaças a minha esposa e diz a ela que vai se vingar se eu não o fizer voltar para o cargo”, diz.
TESTEMUNHAS DE DEFESA
O que chama a atenção de Álvaro Lins é o fato de esses dois delegados serem testemunhas de defesa do contraventor Fernando Iggnácio em processo de homicídio. Eles dizem no processo que não conhecem o réu e as vítimas, mas são chamados como testemunhas. (Reprodução 5)
Segundo Álvaro, essa investigação levou à prisão de Fernando Iggnácio. Ele explica que o contraventor o acusa de ter feito essas investigações favorecendo Rogério Andrade. “E para tentar provar que sua prisão foi articulada por mim ele chama os dois delegados como testemunha de defesa”, cita. De acordo com Álvaro, o contraventor já está solto (saiu antes dele de Bangu 8), responde por quatro homicídios e seis tentativas, além de ter sido condenado por vários outros crimes.
OMISSÃO
Os quatro homicídios e duas das tentativas constam de outro documento recebido pelo A VOZ DA CIDADE. As escutas anunciando os assassinatos por pessoas ligadas a Fernando Iggnácio, com seu consentimento, foram captadas pela Polícia Federal ainda na época da Operação Gladiador, entre agosto e outubro de 2006, quando estavam sendo monitorados a quadrilha do contraventor, policiais e jornalistas. Foram mortos o policial militar Gilmar Simão, a dona de casa Judith da Rocha Pinto Reis, Manoel dos Santos Filho e o sargento PM Michelle Aurélio Lo Monaco, além das tentativas de homicídio de Mima-Perneta (como consta no processo) e do adolescente Marcos Tiago.
Na opinião de Álvaro Lins, o problema maior de tudo isso é o fato da omissão da Polícia Federal. Em matéria veiculada no jornal O Globo no dia 31 de novembro de 2008, sob o título Escuta da Polícia Federal registrou ordens de matar quatro, os policiais federais que participaram da ação informaram que não foi possível evitar os assassinatos porque os criminosos falavam em código nas ligações. Afirmaram ainda que somente depois das análises das escutas, contando também com o apoio de notícias publicadas pelos jornais, é que foi possível confirmar do que se tratavam as conversas.
No documento do Ministério Público Federal ao qual o A VOZ DA CIDADE teve acesso constam todas as conversas. Como exemplo, a dona de casa Judith era ex-mulher de um dos integrantes da quadrilha de Fernando Iggnácio. Segundo as escutas, ela estava se envolvendo com pessoas ligadas ao grupo rival, o de Rogério Andrade. O seu ex-marido avisa a outro integrante da quadrilha que ela estaria se envolvendo com o grupo rival e usa a expressão: “tem que resolver ela logo”. Após 19 dias do primeiro diálogo prenunciar o assassinato de Judith, o homicídio aconteceu. A dona de casa estava com a filha no colo quando foi assassinada. Nada aconteceu à menina.
Para Álvaro Lins, a justificativa da Polícia Federal de não entender o que os bandidos falavam é um absurdo, além da fala de que não acompanhavam as conversas em tempo real. “Como eles acompanhavam um almoço com uma hora de antecedência esperando para fotografar? E mesmo que não ouvissem em tempo real. A cada 15 dias eles devem fazer um relatório das escutas para pedir a renovação por mais 15 dias perante o juiz. No caso da morte da dona de casa Judith, o intervalo de tempo entre a combinação para que ela morresse e o assassinato é de 19 dias. Obrigatoriamente foi feito um relatório e ninguém viu isso”, argumenta.
Segundo Álvaro, a Polícia Federal usou uma máxima que não poderia ser usada nesse tipo de investigação, de que os fins justificam os meios. Esses crimes, em sua opinião, foram muito mais graves do que qualquer quadrilha que pudessem prender. São considerados crimes hediondos, e a Constituição não permite omissão nesses casos. “Então, naquela vontade de tentar produzir uma ação pirotécnica contra mim, contra Garotinho, contra os contraventores, eles permitem que pessoas sejam assassinadas”, garante, completando que a polícia chegou a pedir autorização ao juiz para se omitir, caso se deparasse com uma situação como essa e o pedido foi negado.
O ex-chefe da Polícia Civil tem esperança que o processo seja anulado por conta da imoralidade. Para ele, essas famílias tinham que ser indenizadas. “Tenho certeza que um dia uma pessoa lúcida vai anular isso tudo, mas enquanto tiver sobre os holofotes da mídia a chance de ter justiça nesse processo é muito difícil. Quando a polícia permite essas mortes para tentar me prender está transformando isso numa imoralidade total”, conta.
ELEIÇÕES 2006
Em vários locais, em 2006, o então candidato a deputado e o candidato a governador Sérgio Cabral subiram no mesmo palanque. Ele conta que foi acusado de beneficiar o grupo de Excedentes de um concurso da Polícia Civil. Ele e Garotinho. O problema é que em um vídeo gravado no dia 8 de julho de 2006, no qual o A VOZ DA CIDADE também teve acesso, no Tijuca Tênis Clube, um evento de campanha acontece e Cabral é um dos primeiros a falar. Em uma das falas diz que as pessoas passaram pelo concurso e poderiam ficar frustradas porque nem todos seriam chamados, mas se compromete dizendo: “para que em 2007 o governador Cabral convoque todos vocês para junto conosco fazer da segurança pública uma política séria, honesta e de trabalho para o nosso povo”. Depois veste a camisa dos Excedentes e reafirma: “Esse é meu compromisso, compromisso de colocar todos vocês, vamos preencher as duas mil vagas”.
Em seguida, sem Cabral no evento, Álvaro usa a palavra e diz que estava feliz em apresentar ao governador a causa dos Excedentes e que Cabral havia garantido que chamaria todos os dois mil aprovados. Pegou sua carteira e disse que a rasgaria se eles não entrassem para a Polícia Civil.
“O Ministério Público ignorou essa fala do Cabral. Estou endossando a fala dele. Depois disso aí esses garotos não gostavam do Itagiba (atual deputado federal) e eles não queriam falar com ele. Eu pedi para o Pudim (deputado federal) para conversar com eles. Eles falavam com o Pudim, que falava com o Garotinho, que ajudou como pode para os garotos entrarem. E o Garotinho foi denunciado”, lembra.
Álvaro ainda lembra de uma acusação de corrupção em sua campanha em que o delegado Luiz Carlos é acusado de dar dinheiro pretendendo ser indicado titular de uma delegacia. De acordo com ele, foi feita, sim, uma doação desse delegado, mas de R$ 2 mil e não de R$ 50 mil, como foi dito. Disseram que foi de R$ 50 mil porque ele tinha alguns recibos, mas Álvaro afirma que os recibos estavam com ele porque fazia parte do comitê. “Ele pagava às pessoas que prestavam serviço na campanha. A Polícia Federal diz que esse dinheiro era do Luiz Carlos, mas esse dinheiro veio do senhor Jorge Picciani (presidente da Alerj). Ele pediu para eu fazer uma campanha para o filho dele. Foi uma doação de R$ 140 mil e, para todos os efeitos a escrituração desse valor seria feita na prestação de contas dele, já que foi uma doação”, esclarece.
Álvaro vai além: diz que a polícia criou uma quadrilha dizendo que havia interesse em indicar delegados para a polícia. “E é nessa acusação que entra o Garotinho, meu sogro (Francis Bullos), só que a Polícia Federal não fala da exoneração dos delegados. Na Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente foi feita uma denúncia de corrupção pelo Carlos Minc. E a governadora (Rosinha) decide que o delegado seja trocado. O Dr. Halack (chefe de Polícia na época) toma conhecimento, pede a troca, mas isso não acontece. Até que me encontro com o Garotinho e ele diz que a Rosinha estava chateada, que não tinha sido acatada a ordem dela. Eu dei o recado ao Hallak que me diz estar tentando tirar. Ligo para o Francis e peço para avisar ao Garotinho que passei o recado”, resume.
DESEJO DE VOLTAR PARA A POLÍCIA E POLÍTICA
Álvaro Lins pensa em voltar para a polícia, por uma questão de respeito com sua família. E, por isso, brigará para anular esse processo, ser inocentado e reconquistar tudo o que perdeu, inclusive o mandato de deputado. “E seria um político totalmente diferente do que fui e não daria paz ao governo Cabral. Ia mostrar todos os podres”, avisa. Questionado sobre quais seriam esses podres, apenas diz: “Não sou mais deputado, não posso falar. Se eu falar sou preso”. Ainda completa informando que até hoje não foi expulso do PMDB. Para ele, é medo de que ganhe o processo e volte como deputado por outro partido.
O A VOZ DA CIDADE se coloca à disposição dos citados na matéria para qualquer colocação a respeito das acusações acima mencionadas. (CM)