POLÍCIA NÃO É LUGAR DE BANDIDO

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Delegado Alexandre Neto: ‘O confronto puro não vai resolver’

12 de novembro de 2009 às 21h21

Paulo Cezar Soares

A paixão pela profissão de policial e a consciência crítica da sua responsabilidade social, sempre nortearam o trabalho do delegado Alexandre Neto, da Divisão Anti-Sequestro (DAS). Carioca, 51 anos, ganhou notoriedade ao escrever artigos para os jornais, apontando irregularidades na instituição, nos governos de Anthony Garotinho e da sua esposa Rosinha. Durante sua luta em não compactuar com os desvios de conduta dos maus policiais, tentaram silenciá-lo. Sofreu um atentado em setembro de 2007, na frente da residência, em Copacabana, Zona Sul do Rio. Vários tiros foram disparados na direção do seu carro, por ocupantes de um outro veículo. Ferido, foi levado para o hospital Quinta D'Or, localizado no bairro de São Cristóvão, Zona Norte da cidade, onde foi operado para reconstituição de um dedo da mão direita, destruído pelos disparos. Licenciado do trabalho e ainda fazendo fisioterapia na mão atingida, anda com seguranças e de carro blindado, cedido pelo Ministério Público Federal.

A banda podre da polícia estava sendo investigada pela Polícia Federal e, em dezembro de 2006, duas operações foram deflagradas. Expedidos mais de 40 mandados de prisão contra a máfia dos caça-níqueis, o nome de Álvaro Lins – na época, chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro – fazia parte dos envolvidos, além de quatro inspetores, homens de confiança de Lins, chamados de "inhos", pois usavam seus nomes sempre no diminutivo. (Rogério Augusto de Brito, Jorge Luiz Fernandes, Fábio Menezes de Leão e Hélio Machado da Conceição)

O grupo foi acusado de vender segurança para duas quadrilhas dos caça-níqueis, chefiadas por Fernando Ignácio e Rogério Andrade, genro e sobrinho do bicheiro Castor de Andrade, morto em 1977. Com autorização da Justiça, os envolvidos tiveram seus telefones grampeados ao longo de sete meses. A ação da Polícia Federal ocorreu no dia da diplomação de Álvaro Lins como deputado estadual. Seu mandato durou pouco: foi cassado por "quebra de decoro". Acabou sendo preso e expulso da polícia.

O trabalho da Polícia Federal teve uma ajuda fundamental, quando o delegado Alexandre Neto foi chamado para auxiliar na busca de informações. "Aceleramos algumas coisas que eles não entendiam muito bem", ressalta. (Obs: na época todos os envolvidos foram presos, mas já estão soltos)

Nesta entrevista exclusiva para o À Queima Roupa, realizada em um escritório no centro da cidade, Alexandre Neto conta detalhes da sua luta por uma polícia não corrupta, afirma que Garotinho usa a Palavra de Deus para fins políticos e critica a política de segurança do governador Sérgio Cabral. Sua intrepidez continua a mesma. Confira.

Os responsáveis pelo atentado que o senhor sofreu, já foram identificados e presos?

Um sargento da PM, que teve um entrevero comigo (em Copacabana) na Zona Sul, ele está envolvido. Porque o carro utilizado no atentado contra mim, é dele. Quanto a isso, ninguém tem dúvida. Ele tem que dizer para quem emprestou o carro, pois sabe quem praticou o atentado. Não sei como ainda está vivo. Já era para estar morto. Quem fez sabe que ele é uma caguetação ambulante, entendeu? Não vou fazer nada contra ele, não. Alguém vai fazer. Porque ele sabe quem fez. Então ele foi preso, agora está solto. Daquele evento de Copacabana ele foi o único punido com advertência. Dá para acreditar?

Qual foi o fato que o levou a denunciar o esquema de corrupção na Polícia Civil, na época em que Álvaro Lins a comandava?

Não sou denuncista. Não denunciei nada. Não denunciei o Álvaro Lins diretamente. Escrevi no jornal relatando o que acontecia na polícia. São mais de 10 artigos. Aí, o que aconteceu? A Polícia Federal já estava fazendo um trabalho, e, como eles sabiam que eu sabia de muita coisa, obviamente me encontrei com o pessoal da inteligência e aceleramos algumas coisas que eles não entendiam muito bem. Aí, posso dizer que ajudei, com muita tranquilidade. E faria tudo de novo. Você não vai acabar com a corrupção, na Polícia, na Justiça, no Ministério Público. Ela existe em todos os lugares. Mas não posso admitir que a minha instituição vire uma sucursal do crime. E o que o Álvaro Lins fez, foi isso. A principal agência do crime foi criada por ele e pelos "inhos," Toda corrupção que você vê na polícia é reflexo, acentuadíssimo, do que ele deixou de herança.

'Para limpar a bandidagem, tem que tirar os bandidos da polícia'

O senhor foi um crítico feroz do governo do Garotinho e sua esposa Rosinha. Na época, sofreu represálias?

Posso dizer que não respondi a nenhuma sindicância pelos artigos que escrevi. Tenho um histórico de escrever. Quando tentaram me punir, usei a liberdade de expressão como defesa. O que eu falava, provava. Caberia a quem foi atingido pelo artigo, me processar. Nunca fui processado por nenhum deles. Ficaram quietos. Tacitamente admitiram que tudo era verdade. O Álvaro Lins foi um deles. E o único processo que ele moveu contra mim, foi depois de eu ter sido baleado, pois afirmei que ele era um dos suspeitos. O relatório da Polícia Federal dizia isso. (O processo foi julgado improcedente em todas as instâncias).

Garotinho será – ao que tudo indica – um dos candidatos ao governo do Estado nas próximas eleições. Caso vença, o senhor não tem medo de que ele possa prejudicá-lo?

Não tenho medo do Garotinho. Tenho medo de que ele possa arrumar um chefe de polícia pior do que o Álvaro Lins. Pessoas próximas a ele disseram que o Álvaro foi um oficial (Álvaro Lins foi da PM) cujo nome constava da lista do jogo. Garotinho tinha obrigação de saber disso. Ele foi também secretário de Segurança. Não acredito que ele ganhe o governo do Estado. Quem tiver consciência do voto não vai votar nele. Ele usa a palavra de Deus para enganar os humildes, que precisam realmente acreditar em um político para melhorar um pouco de vida. Garotinho insiste nesse populismo tupiniquim cristão. Não tem personalidade política.

A questão dos caça-níqueis virou uma praga no Rio. Após a prisão do sobrinho e genro do Castor de Andrade, qual tem sido agora a base de sustentação, já que as maquininhas continuam sendo utilizadas?

Corrupção. Todo mês chega o dinheirinho do bicho na delegacia de polícia. Todo mundo sabe disso. Qual é o investimento que se dá para o Rio de Janeiro, em termos de estrutura policial? Você acha que o policial que ganha pouco vai trabalhar sério? Ah! Mas isso não se justifica. Pode até não se justificar. Mas é um grande incentivo para a sacanagem.

Em relação à política de segurança do governo estadual, qual a sua opinião?

Não tem política de segurança nenhuma. O confronto puro e simples não vai resolver. A polícia tem que investir nas corregedorias. Para você limpar a bandidagem, primeiro tem que tirar os bandidos da polícia. Senão o bandido da rua acha graça. Ele diz: nós temos aliado lá; está tranquilo. Tem que investir pesado nas corregedorias. Defendo uma modificação de estrutura nas duas polícias. O secretário, ou o governador, eles teriam que nomear um comandante geral e um corregedor geral, com o mesmo status. Um chefe de polícia e um corregedor com o mesmo status. De modo que o corregedor não fosse colocado pelo comandante, mas sim pelo secretário. A mesma coisa na Polícia Civil. O corregedor não tem que avisar nada para o chefe de polícia o que ele vai fazer. E tem que contar com uma estrutura à disposição, com homens, viaturas e equipamentos.

Falta vontade política ou competência para acabar com o tráfico de drogas no Rio de Janeiro?

Vontade política é reconhecer os bons policiais e remunerá-los condignamente. Para fazer isso, tem que botar os bandidos para fora. Qual é a vontade política, se as corregedorias são fracas? É muito grave. Faltam as duas coisas: competência e vontade política.

Qual a sua opinião a respeito da escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016?

Talvez seja a última chance que a América Latina tenha para provar que tem competência para fazer alguma coisa. Mas vejo com muita cautela isso. Não vai ter legado nenhum. Vão entupir isso aqui com Exército, Marinha, Aeronáutica e Força Nacional de Segurança, que é uma ilegalidade, uma inconstitucionalidade. Os órgãos de segurança pública estão totalmente elencados no artigo 144 da Constituição Federal. Você só pode criar aquilo que a Constituição prevê como órgão de segurança. Quando você cria, por meio de uma lei à parte, um órgão de segurança que não está na Constituição, está criando uma polícia de exceção – uma SS. (Organização paramilitar ligada ao partido nazista alemão. Comandou os campos de concentração e extermínio nos países ocupados).


Fonte: SITE À QUEIMA ROUPA

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alexandreneto_: Acho que vou ficar no PR mesmo... to cansado de um monte de coisa ruim...
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