Enviado por Jorge Antonio Barros - 15.8.2008 |13h31m
Sobre porcos, cachorros e limpeza.
Eu me arrependo de ainda não ter tido tempo para sequer tomar um café com o delegado Alexandre Neto, da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, nem mesmo para lhe prestar solidariedade - manifestada neste blog - depois do atentado de que foi vítima e lhe roubou um dedo da mão direita. Pela sua honradez e destemor, o delegado Alexandre Neto deveria merecer de todo cidadão de bem desse estado o respeito e à gratidão, por ajudar a sociedade a combater o tipo de quadrilha mais perigosa, aquele que se infiltra dentro do aparelho de estado para privatizá-lo em benefício próprio e de seus acólitos. Eu não o conheço pessoalmente, mas o delegado Alexandre Neto me dá a nítida impressão de ser aquele tipo de policial honesto que a gente vê em filme americano, que nos proporciona um final feliz, ao conseguir prender o vilão, sem disparar um só tiro. Pois foi graças a sua decisiva ajuda que a Polícia Federal começou a puxar o fio da meada que levou à descoberta de uma qadrilha que se infiltrou na cúpula da Polícia Civil, com um ramificações na política fluminense. Não foi à toa portanto que o delegado Alexandre Neto era um dos mais aguerridos nas galerias da Assembléia Legislativa do estado, na sessão que há três dias cassou o mandato do deputado Álvaro Lins (PMDB), hoje foragido da Justiça.
Pedi ao Neto que fizesse um relato sobre o dia da histórica sessão, mas ele preferiu escrever por meio de uma metáfora até certo ponto elegante (se os personagens não fossem grosseiros), usando o mote da retórica de Álvaro Lins, em seu discurso de defesa, na tribuna da Alerj.
Aí vai o texto:
"PORCOS E CACHORROS
A saga do dr. Álvaro Lins é o retrato, pintado em cores vivas e contrastantes, da desfaçatez e do cinismo que se desenhou, com retoques requintados, no quadro da vida pública e política do estado do Rio de Janeiro nos últimos seis anos da "famiglia" Garotinho à frente do “governo” fluminense. Parodiando o discurso de defesa do ex-chefe de polícia perante seus pares na Alerj, onde o mesmo fez alusão à obra de George Orwell, “A Revolução dos Bichos”, o cachorro escolhido para tomar parte na pintura tinha pedigree de linhagem e até nome pomposo: “CARDEAL”. Não foi escolhido no canil por acaso. Era obediente e fiel. Mordia por todos os lados e defendia seus “patrões”. O quadro era intocável, irretocável...
Mas a obra desenhada fez inveja à criatividade de Orwell, pois foi resultado de uma genialidade voltada para o mal, onde as pinceladas de cunho mafioso se consolidavam na medida em que a pintura se coloria, com respingos nos diversos artistas que o patrocinavam, de molde a não deixar dúvidas no tocante à autoria conjunta da obra. E o cachorro, logo de início, acabou por se aliar aos porcos na imagem retratada. As cores eram fortes e avivadas. A galeria da POLÍCIA e do MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAIS não tardariam em descobrir a obra, seus autores e figurantes, expondo uma triste e lastimável imagem que o povo fluminense não merecia. Ou merecia???
“MADAME”, “PRÍNCIPE”, “BISPO” e “CARDEAL” apareciam na tela, ladeados pelos leais cachorrINHOS da raça “PRIMOS”, além de alguns “JÓQUEIS” que não montavam seus cavalos. O quadro era grande e cheio de detalhes, onde somente um bom marchand teria perspicácia para identificar as imagens que ainda estariam por se destacar. Notava-se, ao fundo, um palácio, defrontado por uma estátua de um homem levado à forca... Via-se também um outro palácio, estilo “mil e uma noites”, cercado por portentosas palmeiras imperiais... Tudo era magia, e dela exalava um forte apelo do catecismo evangélico-tupiniquim... O quadro parecia ser surreal.
Porém, valeu a máxima “a Justiça tarda, mas não falha”. Sobretudo quando se trata da Justiça Federal – sem qualquer menosprezo à Justiça Estadual - , mas o fato é que “CARDEAL”, os cachorrINHOS e seus patrões eram muito respeitados nessa área. Nada lhes acontecia... Mas a “crítica” feita pelo Parquet Federal foi irretocável. A documentação obtida e os diálogos captados a partir do quadro pintado deram a dimensão daquilo que foi dito acima com relação à obra e seus personagens - bichos e patrões.
“CARDEAL”, valente cão de caça, sempre viveu de excessos e “desafios”, tanto que logo quis se igualar aos porcos, que eram mais inteligentes. Assim, se predispôs a obter 50 (cinqüenta) farelos de cada cachorrINHO para reforçar sua candidatura à pocilga, onde poderia viver bem para o resto de sua vida. Com sagacidade e inteligência, “CARDEAL” ganhou seu lugar no chiqueiro, mas a manobra não deu certo, pois os cachorrINHOS foram flagrados em tal galeria arrecadando farelos, tendo os Federais decifrado a pintura que, impunemente, compunha a imagem pelo ângulo de vista estadual.
Assim, a “honorabilidade” da imagem de “CARDEAL” findou maculada e acabou apagada por suas próprias ambições e aspirações desmedidas. Por sua própria vilania e menosprezo à inteligência daqueles outros cães de raça que o cercavam e que compunham uma matilha que não se intimidava com seu grosso rosnar e dentes afiados. “CARDEAL” confiou nos porcos de quintal, que se refastelavam na lama e comiam lavagem, mas esqueceu-se daqueles outros porquinhos brancos, criados com ração e que vivem em ambientes limpos e arejados. Não mais pode reclamar do que lhe aconteceu. Haverá de viver e se conformar com a pecha de mau caráter e desonesto, de vilão e criminoso. Nada - e ninguém - pode socorrer-lhe do “suicídio” praticado. Agora, o time de Bangu 8 já tem um “ex-capitão”, chamado “CARDEAL”. Battman, o Homem Aranha e Ruy Barbosa agradecem ao pessoal da galeria de artes por tê-los deixados fora desse trágico quadro.
Alexandre Neto"
(Especial para o blog REPÓRTER DE CRIME)